sábado, 24 de março de 2012

Vinho E Humor Secos



   Dizem que tudo que é bom dura pouco. Eu não sei se posso dizer o contrário.
   
   Esses dias atrás, abri uma garrafa de vinho que valia muito mais do que a dignidade de muitas pessoas. E mesmo assim, ela não durou trinta minutos.

   Era um vinho fino e de bom trato (tinto e seco), coisa pra poucos. Eu nem sei se sou um deles, mas entornei mesmo assim. Sozinho! 


   Aquele vinho não nascera pra ser brindado. Dispensava acompanhamento e companhia. Um vinho solitário. Encorpado! Tinha mais personalidade do que quem o havia comprado. Afinal, sua idade impunha respeito.


   Pessoas deviam envelhecer como o vinho, suaves quando nascem, fortes e imponentes quando jovens, sábias e ainda suaves quando velhas. 


   Só espero encontrar uma mulher tão saborosa quanto um vinho, embora o vinho seja um simbolo fálico. Mais fálico que o próprio falo. Senão vinho, o que deve ser o homem? 


   Um homem nasce e cresce sem esperança de ser degustado, brindado, ou até mesmo, prestigiado. O vinho já nasce com glória e destino. Deitado, descansa esperando o homem cansado, o poeta, o bêbado, a prostituta e o vigário. Embora desconheça o seu destino, se porta com dignidade, será sempre comemorado.


(Rayvner Ferreira)

Sem Receio

   
   Mesmo sem saber, eu queria te provar, como quem pede o café no horário do jantar. E se não tivesse sobremesa, eu comeria a mesa, sem receio de você não gostar.


(Rayvner Ferreira)

terça-feira, 13 de março de 2012

Eduardo e Mônica

Eduardo e Monica
Direção- Renato Telles
Elenco -  Juninho Ribeiro e Raquel Ely
Maquiagem - Jherus Eulálio
Figurinos -  Miguel Habacuc e Jean Fernando  
Fotografia- Cláudio Abrantes e Francisca Fonseca
Equipe Técnica - Naná Eulálio, Arthur Cavalcante, Jherus Eulálio, Tamara Dias, Lúcio Cardia  
Roteiro - Renato Telles, Raquel Ely, Cláudia Amorin e Rodney Weverson.
Fragmentos -  Renato Russo, Cecília Meireles, Shakespeare e Clarice Lispector.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Toalha De Mesa


  Gosto do pão que esfarela. É sinal de que foi feito com amor, com zelo. Como sem cuidado. Minha fome e vontade nem sempre tem educação, e nunca tiveram orgulho. Como depressa, derrubando as migalhas na mesa e no chão.
  
  Toalha de mesa não tem vaidade, seja de crochê, de renda, de plástico, adamascada, bordada, redonda. Por mais que ela esteja suja, manchada, você nunca vai ouví-la reclamar. Diferente da estante, que qualquer coisinha fora do lugar é gritante, a mesa aceita as migalhas. Não reclama da sujeira, não se importa em estar usada. Ela nasceu pra servir e não reclama outros direitos.
   
  É tão bom sacudir a toalha de mesa. Me parece o cuidado que se deve ter com as mulheres. É como morder a carne que não deve sangrar. Morder os lábios sem tirar um pedaço da boca. Arranhar as costas, como quem arranha um violão. Não se arranha por maldade, apenas arranhamos pra ouvir uma canção ou um gemido.
  
  Gosto dos farelos de pão sobre o chão da sala. Gosto de deixar as migalhas, pra que o vento tenha o que levar. E pra que nenhum passáro passe fome na poesia.

(Rodney Weverson)

Trivial ou Segredo?



Uma menina da escola, certa vez me perguntou: "Você é popular?" - Eu disse: "Sou, mas vê se não espalha."

(Rodney Weverson)

Observação: Na foto, Juninho Ribeiro na pele de Eduardo e Raquel Ely intepretando Mônica. Renato Telles na direção do espetáculo Eduardo e Mônica. Peça que terá sua estréia em Abril de 2012.

Certos Amores (Certos!)

   Certos amores não se contentam em doar só as mãos; querem também andar de pés dados.

(Rodney Weverson)

 (Foto do ensaio Eduardo e Mônica. Peça que estreiará em Abril de 2012)

sábado, 10 de março de 2012

Quero




Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Carlos Drummond De Andrade)

Jogo Revelador



 Como posso dizer que te amo,
Se ao menos nem sei o que é isso?
Se a cada segundo que passa, 
Me sinto completamente perdida,
Não sei mais o sentido da palavra.

Impossível mesmo seria dizer que não o ano,
Se é por isso mesmo que estou falando,
Poe isso, nem me lembro mais de seus erros,
E nem conseguirei respirar sem voce.

Amor? O que é mesmo o amor?
Será que devemos nos importar com isso,
Se passamos a vida inteira ssem entende-lo?
Não seria melho eu simplesmente viver o que estou sentido,
Sem me preocupar se será pra sempre?

Serão os nossos nomes?
É... Talvez sim.
Os nossos nomes dão ideia aqueles de fora
Que fingem saber de tudo,
Mas na verdade, não sabem de nada.
Nem eu que estou aqui sei por onde começar,
Muito menos como vai acabar,
Mas tudo que começa, termina.

(Rodrigo De Lucas)

Ouvir Estrelas




 "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(Olavo Bilac)

A Moça Caetana A Morte Sertaneja


 Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso,
e os dentes de Coral da desumana.


Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel,
os peitos fascinantes e esquisitos.
Na mão direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.


Na fronte, uma coroa e o Gavião.
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes
que, rufiando nas pedras do Sertão,


pairavam sobre Urtigas causticantes,
caules de prata, espinhos estrelados
e os cachos do meu Sangue iluminado.


(Ariano Suassuna)

Versos Íntimos





Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto Dos Anjos)